Pergunta: quem é o maior competidor de Jiu-jitsu de todos os tempos?
A resposta mais comum é Roger Gracie. 10 títulos mundiais. Nunca perdeu uma luta por pontos na faixa preta. Finalizou praticamente todo mundo com o básico — montada, estrangulamento da gola cruzada, pegada de costas e armlock. O GOAT absoluto.
Mas tem uma coisa sobre o Roger que quase ninguém fala: ele não nasceu especial.
Não era naturalmente talentoso. Não tinha atributos físicos impressionantes. Era gordinho. Medroso. Introvertido. O último a ser escolhido pro time de futebol na escola. E pior: cresceu numa família de campeões, cercado por primos que já eram feras. Comparado a todos eles, Roger era mediano. Nada de especial.
Mas aos 16 anos, algo clicou. E ele tomou uma decisão: "Eu vou ser o melhor do mundo."
As informações deste post foram tiradas do livro do próprio Roger Gracie, Warriors Mindset — que no Brasil veio com a tradução "Mentalidade de Guerreiro: O Caminho de um Campeão". Recomendo demais.
Uma Infância Mediana
Roger nasceu em 1981, no Rio de Janeiro. Mãe: Reila Gracie. Pai: Mauricio Gomes — faixa preta, mas sem academia própria. Moravam num apartamento de dois quartos em Copacabana. Nada de mansão, nada de privilégio absurdo.
Tinha uma irmã mais velha, Vanessa — e ela batia no Roger. Muito. O próprio Roger diz no livro: "Acho que uma das razões de eu ter virado um lutador duro foi graças às surras regulares que eu levava da minha irmã Vanessa." Às vezes ele tinha que se trancar no banheiro pra escapar dela.
Quando Roger tinha 3 anos, os pais se separaram. E pouco antes, o tio e mentor do pai — Rolls Gracie — tinha morrido num acidente trágico de asa-delta. O pai de Roger ficou destroçado. Roger cresceu sem o pai no dia a dia.
Como era Roger criança? Nas palavras dele mesmo: "Eu era uma criança mediana, com ênfase no 'mediana'. Não era academicamente talentoso. Não era naturalmente atlético. Não havia nenhum sinal do lutador que eu viria a ser."
No futebol, ele era péssimo. Sempre um dos últimos a ser escolhido. Na natação, a irmã Vanessa ganhava as provas. No surfe, os amigos pegavam ondas grandes sem medo — Roger ficava com o freio ligado. "Eu era travado pelo medo. Acho que também era meio introvertido — escutava mais do que falava."
Crescer Entre Campeões
Roger tinha vários primos da mesma idade: Rolles Gracie, Igor Gracie, Kyra Gracie (futura campeã mundial feminina). Todos treinavam. Todos eram bons. Muito bons.
Roger treinava também, mas de forma solta, sem foco, sem intensidade. Competiu algumas vezes de criança. Nunca ganhou nada digno de nota. Enquanto os primos dominavam nos torneios, Roger voava sob o radar.
Nas palavras dele: "Nada em mim gritava 'futuro campeão mundial'. Muitos dos meus primos estavam muito à frente de mim em habilidade técnica e condicionamento físico."
Não havia expectativa de que ele faria algo grandioso. E isso, de certa forma, foi uma bênção — mas também doía. Porque no fundo, ele via os campeões ao redor. E sabia que não era um deles. Ainda não.
O Clique: Verão de 1996
Aos 15 anos, Roger foi passar as férias com o tio Rilion Gracie em Florianópolis. O primo Rolles também estava lá — já era faixa roxa, competidor de alto nível.
O tio Rilion olhou pro Roger gordinho e fora de forma e disse: "Vou te colocar numa dieta. E você vai treinar todo dia."
E Roger amou. Apanhava de todo mundo — mas amava aquele estilo de vida. Pela primeira vez, estava treinando de verdade. Com propósito. Com intensidade.
No ano seguinte, aos 16, ele conseguiu convencer a mãe a deixá-lo morar com o tio Crolin Gracie em Floripa. E foi lá que aconteceu o clique. Nas palavras dele: foi naquele ano que seus genes Gracie realmente entraram em ação. Não era sobre talento natural. Era sobre determinação. Sobre trabalho. Sobre não desistir.
Todas as outras crianças da academia eram melhores que ele. E como resultado, ele não sentia pressão. Ninguém esperava que ele fizesse algo grandioso. Ele era o underdog. O azarão. E isso o libertou — porque não tinha nada a perder. Só tinha a ganhar.
Da Obscuridade ao Topo
Em 2000, aos 19 anos, Roger ganhou seu primeiro mundial — faixa azul. Naquele momento, ninguém mais duvidava. Ele já finalizava faixas pretas na academia.
Roger sempre carregou a memória do tio Rolls — o cara que morreu quando ele tinha 3 anos. Rolls era lenda: inovador, criativo, rápido, dinâmico. Roger nunca o conheceu de verdade, mas sentia que tinha que honrá-lo.
E quando Roger virou faixa preta e começou a dominar o mundo, fez isso do jeito dele: Jiu-jitsu básico, executado perfeitamente. Montada. Finalização da gola cruzada. Pegada de costas. Armlock. Nada revolucionário. Só os fundamentos do Jiu-jitsu elevados ao nível de arte.
10 títulos mundiais. Nunca finalizado em competições na faixa preta. Roger Gracie — o gordinho medroso que ninguém apostava — se tornou o maior de todos os tempos.
4 Lições Para Você
1. Você não precisa nascer especial. Roger não nasceu com talento. Era mediano em tudo. Pior que a irmã, pior que os primos. Mas ele decidiu que isso não ia defini-lo.
2. Voar sob o radar é uma vantagem. A falta de expectativa libertou o Roger. Ninguém esperava nada, então ele não tinha medo de falhar. Trabalhou em silêncio, sem ego, sem pressão.
3. O clique pode acontecer a qualquer momento. Roger treinou anos sem propósito. De repente clicou. Talvez você ainda esteja voando sob o radar. Mas quando clicar — e vai clicar — tudo muda.
4. Básicos executados perfeitamente vencem tudo. Roger não inventou nada novo. Só fez o básico melhor que qualquer outra pessoa na história do esporte.
Conclusão
Mediocridade no começo não define seu destino. Você pode ser o último a ser escolhido, o mais fraco da turma, aquele que ninguém aposta. E ainda assim, se você encontrar seu propósito, trabalhar em silêncio e não desistir — você pode se tornar o melhor.
O GOAT não nasceu GOAT. Ele se tornou.
OSS.