Imagina um Brasil onde Jiu-jitsu é obrigatório nas escolas. Nas academias militares. Na polícia. Nas universidades. Um Brasil onde criança aprende armlock junto com tabuada e todo policial domina a guarda fechada.
Parece sonho? Paraíso do Jiu-jitsu?
E se eu te contar que isso já existe — e não está dando certo?
Abu Dhabi fez exatamente isso há 17 anos. Jiu-jitsu obrigatório em tudo. Investimento milionário. Infraestrutura de primeiro mundo. E o resultado é uma lição que todo praticante precisa conhecer.
A Utopia Brasileira
Vamos sonhar um pouco. Se Jiu-jitsu fosse obrigatório no Brasil, todo aluno do ensino fundamental e médio teria 2 aulas por semana — não opcional, currículo, igual matemática e português. Criança de 6 anos saberia a diferença entre guarda fechada e aberta. Adolescente de 15 teria consciência corporal, saberia cair, saberia se defender. Bullying? Reduz drasticamente, porque todo mundo aprendeu respeito e humildade no tatame.
Todo policial — militar, civil, federal — seria faixa azul no mínimo. Progressão de patente vinculada à evolução no Jiu-jitsu. Resultado: menos abordagens violentas, mais controle, sem precisar sacar arma pra imobilizar suspeito.
Em 10, 15 anos, o Brasil viraria potência absoluta — não só na técnica (que já somos), mas em volume de praticantes. 50 milhões de brasileiros treinando Jiu-jitsu. Lindo, né?
Mas alguém já fez isso. E não deu certo.
O Que Abu Dhabi Fez
Em 1993, Sheikh Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, membro da família real de Abu Dhabi, assistiu o primeiro UFC na TV. Viu Royce Gracie dominar todo mundo com Jiu-jitsu. Foi estudar em San Diego, entrou numa academia da Gracie Barra, virou aluno sério.
Voltou com uma missão: transformar os Emirados na capital mundial do Jiu-jitsu. Em 1998, criou o ADCC — o campeonato de submission wrestling mais prestigiado do planeta.
Em 2008, o irmão — Sheikh Mohammed bin Zayed Al Nahyan, atual presidente dos Emirados — declarou Jiu-jitsu como esporte nacional e o tornou obrigatório nas escolas públicas. Começou com 14 escolas. Hoje são mais de 165 escolas, mais de 76 mil alunos. Duas aulas por semana. Currículo obrigatório. Kimono fornecido pelo governo. Mais de 600 faixas pretas brasileiros contratados — com salário de USD$4.000 por mês, apartamento mobiliado, plano de saúde e passagens pagas.
Jiu-jitsu obrigatório também nas forças armadas e na polícia, com progressão de patente vinculada à presença nas aulas. Investimento de bilhões de dólares ao longo de 17 anos.
A Realidade Crua
17 anos depois, qual o resultado real?
Problema 1: Ninguém faz por amor. Quando você obriga alguém a fazer algo, você mata a paixão. Um professor brasileiro que trabalhou lá por anos descreveu assim: nas forças armadas, presença é obrigatória pra progressão de patente. Os militares vão. Mas não querem estar lá. Eles odeiam Jiu-jitsu. Vão só pra bater presença, fazem corpo mole, não absorvem nada. É obrigação, não paixão.
Problema 2: Zero campeões de verdade. 17 anos. 76 mil alunos. Investimento bilionário. Quantos campeões mundiais IBJJF Abu Dhabi produziu? Zero de peso. No Mundial da IBJJF, no ADCC contra a elite global, os atletas emiratis simplesmente não aparecem. O Brasil, com programa zero do governo, produz centenas de campeões. Por quê?
Problema 3: Falta cultura orgânica. Jiu-jitsu no Brasil cresceu de baixo pra cima — favela, comunidade, paixão, gente que viu no esporte uma saída. Oswaldo Fadda ensinando em Bento Ribeiro. Carlson Gracie abrindo academia pra ralé. Pessoas que amavam o esporte e passavam isso adiante. Em Abu Dhabi cresceu de cima pra baixo. Governo mandou. Não tem alma, não tem fogo. É tipo tentar criar samba por decreto.
Problema 4: Professores desmotivados. O salário é ótimo, a estrutura é incrível — mas ensinar pra quem não quer aprender é desgastante. Professor se mata preparando aula, e o aluno fica olhando pro relógio querendo ir embora. Vários brasileiros voltaram pro Brasil ganhando menos, mas felizes — porque lá os alunos querem estar ali.
A Solução de Verdade
Então sou contra Jiu-jitsu nas escolas? Contra nas forças armadas? Não. Sou contra obrigatoriedade.
O que o Brasil deveria fazer é incentivar, não obrigar. Empresa que mantém programa de Jiu-jitsu? Desconto no imposto. Academia que dá aula gratuita pra comunidade carente? Isenção de ISS. Jiu-jitsu como opção nas escolas — junto com futebol, vôlei e basquete, o aluno escolhe. Nas forças armadas, não obrigatório, mas vantajoso: policial que treina ganha pontuação extra na progressão.
O segredo não é forçar. É inspirar. Mostra os benefícios. Mostra as histórias. Mostra como Jiu-jitsu muda vida. Aí as pessoas vão por conta própria — e quando vão por conta própria, aprendem de verdade, evoluem de verdade, viram campeões de verdade.
Conclusão
Abu Dhabi tentou criar amor por decreto. 17 anos. Bilhões de dólares. Infraestrutura top. E zero safra de campeões. Porque paixão não se cria por obrigação.
O Brasil não precisa copiar Abu Dhabi. Precisa fazer o que sempre fez: deixar o Jiu-jitsu crescer organicamente. Com incentivo, sim. Com acesso facilitado, sim. Mas com liberdade e com escolha.
Porque Jiu-jitsu é sobre liberdade. Liberdade pra se mover, pra escolher, pra ser quem você é. E isso não se impõe. Isso se inspira.
OSS.